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Textos

Em Defesa da Opacidade
Lou Tsatsas - novembro de 2025

  Na penumbra, não se distingue nada, ou quase nada. Aqui, um braço escarlate estendido em direção ao desconhecido. Ali, uma planta que projeta sua sombra sobre o tecido de uma cortina. São simples fragmentos que rasgam a escuridão para dar início a um relato que temos dificuldade de reconduzir ao real. É opaco, misterioso. Ainda assim, adivinhamos matérias que quase poderíamos tocar: as dobras das camisas, a renda dos vestidos, o veludo das pétalas de rosas. E imaginamos cantos, coros e gestos rituais que se elevam no calor úmido de uma noite que, até então, nos parecia comum. Cantos conduzidos pelos tambores, graves e surdos, cujos ritmos anunciam a chegada do ritual — a chegada da magia.

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  Não se observa verdadeiramente as fotografias de Ian Cheibub; nós as sentimos. Nascido no Rio de Janeiro, o artista de 26 anos faz parte da quinta geração de uma família ligada à Umbanda, uma religião mediúnica que se desenvolveu na região de sua cidade natal. “Para mim, é a expressão mais forte da brasilidade”, explica. Essa espiritualidade reúne três matrizes: as heranças africanas — sobretudo bantas —, as tradições indígenas e o catolicismo popular reinventado. É uma religião sem livro sagrado nem dogma fixo: cada templo cria suas próprias maneiras de fazer. “No terreiro onde minha avó, uma grande sacerdotisa, atuava”, o autor desempenha o papel de ogan: “a pessoa que estabelece a comunicação entre os espíritos e os médiuns por meio do tambor”, explica.

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  Uma função que alimenta sua prática fotográfica: “é através da música e de sua maneira de estruturar nossas sociabilidades, através dessa cadência particular que pontua os rituais, que surge a inspiração. Uma harmonia que ele compõe por meio de um conceito: as materialidades mágicas — esses objetos banais que encontramos nas casas — ervas, velas, estatuetas, papéis, pó, couro... — e que se impregnam de uma energia mística uma vez introduzidos no terreiro. Uma espécie de tecnologia do oculto que transforma o concreto para retirar dele sua dureza.”

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  Esse deslocamento do pensamento, o autor procura aplicar à própria prática: “Busco desnaturalizar as questões estéticas e políticas do meio para interrogar a ideia ainda dominante de verdade objetiva. Substituo os usos para criar novas abordagens e evidenciar os processos.” É um gesto de resistência diante das narrativas impostas”, afirma.

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   Na contramão de uma fotografia reveladora, é a opacidade — ou melhor, o direito à opacidade — que Ian Cheibub reivindica. Um conceito tomado de empréstimo ao escritor martinicano Édouard Glissant: “Nem tudo precisa ser traduzido, explicado, tornado transparente”. Cansado de uma representação estereotipada das práticas espirituais brasileiras, colocada em evidência nos últimos anos, o artista prefere esconder, sujar, aventurar-se para além da percepção de uma beleza popularizada pelos “padrões estéticos vindos do Norte”.

 

  Em suas fotografias, o mundo é difuso, vaporoso, já partindo em direção a um espaço encantador onde a percepção, como elemento de prova, deixa de existir. Ali, tonalidades vermelhas colorem nosso olhar; elas alteram os vestígios do tangível para permitir que o artista se aproprie dos mitos, lendas e narrativas que encena, sempre atento ao poder do inesperado: “Desenvolvi a ideia de mergulhar os negativos em banhos de ervas antes de revelá-los. Os acidentes estéticos escapam ao meu controle, e a magia se torna então uma agente. Paralelamente, esses banhos protegem meus irmãos e irmãs de fé, presentes sob a forma de luz”, conta. Uma técnica que faz emergir massas negras, bolhas, astros ou formas espectrais, como tantas impressões visuais que traduzem a essência de sua crença.

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  Pois, para Ian Cheibub, o importante é justamente o “como”. Como convocar a essência da Umbanda? Como imortalizar uma sensação quando ela não é totalmente nítida ou figurativa? Como fazer com que a fotografia capture aquilo que não é perceptível a olho nu? Ao mesmo tempo íntima e exuberante, Alumbre na Macaia se apresenta assim como uma imersão sensorial que nos convence de que as imagens não são simples imagens. De que elas escapam para uma experiência sonora, corporal e espiritual.

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   Uma experiência que podemos entrever na suspensão, nos detalhes e nos movimentos que permanecerão sempre apenas insinuados: corpos que dançam e outros que conversam à luz da lua; bocas abertas; dedos estendidos, incapazes de se fechar; e então frutas, ali, parcialmente mordidas e seladas no oco de uma palma, oferecidas para nos convencer, por sua banalidade, de que esses objetos nos pertencem ou de que nos ligam a esse espaço-tempo que a fotografia extrai da sombra.

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   E é precisamente essa maneira de ver que constitui o alicerce dessa religião. “O que gosto em nossa prática é que não existe nem vontade de convencer ninguém, nem culpa. Apenas uma experiência: o sagrado está naquilo que cantamos, comemos, dançamos, rezamos e acreditamos”, explica aquele que não cessa de convocar essa relação com a liberdade por meio de sua abordagem da fotografia.

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   Uma liberdade necessária para compreender os fundamentos de sua fé, pois, quando nasce, no início do século XX, a Umbanda se afirma como uma oposição aos esquemas de opressão impostos pela cultura branca dominante.

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  “Fundamentalmente, a Umbanda dá voz àqueles e àquelas que foram reduzidos ao silêncio: pessoas africanas escravizadas, povos indígenas, mulheres, pobres, ciganos... Ao entrar em transe ao lado desses espíritos ancestrais, eles nos aconselham, nos protegem e indicam caminhos. Dobramos o tempo e reescrevemos então a história a partir de outra perspectiva, abolindo toda noção de ‘pureza’”, conclui.

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