Textos
Guiné, Editor
Sergio Valenzuela-Escobedo - março de 2026
Cosmoguiné não designa nem um objeto nem uma série de imagens, mas a composição de um mundo. O termo associa o cosmos — compreendido como um sistema ordenado, estruturado e relacional — à guiné, planta medicinal e mística cujos usos atravessam as tradições afro-americanas. Proteção, purificação ou defesa: a guiné age sobre os corpos, os espaços e as forças invisíveis. Ela é, ao mesmo tempo, barreira e perigo, cura e veneno. Sua potência nunca é metafórica. Ela implica uma relação.
Guiné remete simultaneamente a uma planta nomeada Petiveria alliacea pelos cientistas europeus, a territórios africanos, a memórias deslocadas e a saberes sobreviventes. Esses significados não se sobrepõem de maneira harmoniosa: entram em fricção. Cosmoguiné se situa precisamente nessa zona de contato, onde diferentes ontologias coexistem sem se reduzirem umas às outras.
O trabalho do artista Ian Cheibub não pode ser qualificado como fotográfico, ainda que dialogue com a história da imagem técnica e com as complexidades da modernidade. O fato de a primeira fotografia nas Américas ter sido realizada no Brasil inscreve o aparelho em uma genealogia colonial da prova, da medida e da captura. Ian coloca em crise essa história da branquitude. Ele joga contra o aparelho e busca revelar a obscuridade no interior da máquina — não como ausência, mas como espaço ativo, carregado de decisões, crenças e violências invisíveis.
Explorar a sombra nunca é uma decisão banal. A escuridão não é apenas uma escolha estética ou conceitual: é também uma condição imposta, por vezes uma doença. A luz, frequentemente pensada como reveladora e salvadora, torna-se então uma ameaça, uma exposição perigosa. A sombra deixa de ser refúgio simbólico para tornar-se necessidade vital.
Há ali a lentidão ínfima do sol caindo numa poça de prata e, em outro lugar, uma família escondida do sol. Não por recusa do mundo, mas para nele sobreviver. A sombra não é um recolhimento; é outra maneira de habitar o real, de compor com aquilo que revela.
Ao buscar a sombra, o artista de Niterói não formula uma crítica frontal às empresas químicas multinacionais, nem uma denúncia ecológica espetacular. Cosmoguiné se constrói como uma colaboração. O artista não trabalha sobre a planta, mas com ela; não trabalha sobre uma família, mas com ela. Nesse contexto, a guiné não é nem matéria nem símbolo: é um ator dotado de agência. Ela imprime, modifica, perturba. A obra não é executada; é negociada.
Num mundo habitado por uma multiplicidade de sujeitos — humanos, animais, plantas, mortos, fenômenos, artefatos — todos dotados de disposições perceptivas e cognitivas semelhantes, o que varia não é a alma, mas o ponto de vista. Não há objetos neutros, mas uma cosmopolítica complexa. A cosmopolitização busca compor um mundo comum entre seres humanos e não humanos. O político deixa de ser exclusivamente humano para tornar-se um espaço de diplomacia entre modos de existência heterogêneos.
Nos líquidos da Umbanda que constituem nossos corpos, nossa cultura, nossos sonhos e nossos tempos, a guiné age precisamente como um agente diplomático. Ela não se limita a ser utilizada: ela decide, responde, intervém. Para certas comunidades, é um espírito protetor; para a ciência, um anti-inflamatório ou um tóxico. Estreladas e gramíneas, dão a ver uma constelação. Essas realidades não se anulam. Elas coexistem em um mesmo cosmos.
Diante do aparelho, assim como diante da planta, Ian renuncia à soberania do autor. Ele aceita que a forma final escape, resista, contradiga. O negro já não é um defeito a ser corrigido, mas um lugar de negociação entre visibilidade e opacidade, saber e crença, controle e abandono.
Da mesma forma, o trabalho de Ian abre um espaço para os espíritos. Sua presença não se manifesta pela imagem, mas pelo som: “No me gusta la careta”. Essa voz rompe o silêncio circular colocado sobre a água por Niemeyer. A intervenção sonora fissura essa arquitetura de calma e domínio, introduzindo uma dissonância, uma fala que recusa. Essa recusa atravessa toda a exposição: recusa da pretensa objetividade, recusa da separação estrita entre natureza, imagem e espiritualidade. Aqui, a imagem não pretende explicar o mundo. Ela age com ele. Participa de sua composição, introduzindo forças, vozes e presenças que escapam à forma.
Cosmoguiné não é uma exposição para ser olhada, mas um espaço de luz negra a ser atravessado. Ela se desdobra do grande cosmos ao inframince, conectando escalas heterogêneas — do cósmico ao imperceptível. O que ali se desenrola não é uma sucessão de obras, mas um conjunto de subjetividades e ações artísticas em interação. A exposição funciona como um campo de forças, onde diferentes presenças compõem, se desajustam e reorganizam juntas um cosmos possível.