Textos
Em Algum Lugar Entre Ian e a Guiné
Gabriela Davies - março de 2026
Ao longo da história, projetamos sobre objetos, imagens e monumentos um valor espiritual que nasce da nossa própria necessidade de atribuir sentido ao mundo. Figuras religiosas como santos e orixás tornam-se depositárias de fé e devoção. São artefatos atravessados pela nossa dependência de uma conexão com o sagrado. Quando colocados estes objetos em relação à crença, passam a operar como mediadores entre o homem e aquilo que se entende como divino. Cria-se uma relação de espelhamento entre o humano e a matéria que encarna essa representação de uma entidade, na tentativa de criar um ponto de contato com o sagrado.
Nas obras expostas, imagens sacras aparecem quebradas, rudimentares, destituídas de sua postura monumental. Aquilo que parecia carregado de transcendência retorna à sua condição elementar de matéria. Essas imagens, feitas de gesso e suspensas no espaço, contrapõem com as réplicas de pés de plantas fundidas em bronze. Ramos finos que surgem do chão, sem folhas, são produzidas de um material nobre que perdura a ação do tempo e que aqui parecem carregar uma força maior. São as mesmas plantas cujas folhas são impressas expandidas e penduradas do teto em preto e branco, as mesmas que são usadas nos banhos de negativos fotográficos que são projetadas no grande círculo a volta do espaço: a Guiné.
A planta guiné se torna o sujeito central da narrativa de Ian Cheibub em sua exposição. Conhecida por suas propriedades de cura e profundamente associada a práticas religiosas, especialmente na umbanda – crença de Ian – a guiné carrega em si uma dicotomia intrínseca. Trata-se de uma planta que pode curar, mas apenas a partir da remoção de sua ponta venenosa. Paradoxalmente, é essa mesma ponta que permite sua reprodução. Aquilo que pode ferir é também o que garante a continuidade da espécie. O que à primeira vista parece contraditório revela seu complexo mecanismo de sobrevivência e defesa evolutiva.
Na verdade, a Guiné aparece aqui não apenas como motivo, mas como colaboradora do artista na criação do seu trabalho. Nada do que construímos é feito sozinho – embora frequentemente ignoremos essa interdependência. Aqui, a planta interfere, cresce e edita essas obras. Sua ação sobre os negativos fotográficos marcam e distorcem as imagens capturadas por Cheibub em um processo de criação compartilhado, permitindo que sua presença se imponha ao atravessar e reorganizar a imagem. A natureza, e por tanto o divino, deixa de ser apenas tema e passa a atuar diretamente na constituição dos trabalhos.
O trabalho de Ian Cheibub se constrói na limiar do encontro com o sagrado e o mundo material. Essas relações expõem aquilo que podemos chamar de falsas dicotomias. Micro e macro, religião e cotidiano, cura e veneno, natureza e construção: pares aparentemente opostos que, na realidade, só existem a partir da definição um do outro. Construímos essas categorias para tornar o mundo mais compreensível, para organizar a experiência da nossa passagem por ele. Como o próprio artista menciona, trata-se de um grande teatro que criamos para tornar a vida mais interessante. E, no entanto, o trabalho de Cheibub revela o quanto essas distinções podem ser concomitantes, interdependentes e fluidas dentro da mesma matéria – sejam elas esculturas religiosas, plantas curandeiras, ou – e principalmente – nós.
Encontramos no próprio título Cosmoguiné essa oposição entre escalas e potências. De um lado, o cosmos, uma grandiosidade que ultrapassa completamente nossa compreensão; de outro, uma planta terrestre, cotidiana, que carrega dentro de si o poder de cura ou intoxicação. O cosmos e a guiné deixam de pertencer à espectros opostos e passam a existir como manifestações de um mesmo sistema de forças que culminam à criação. Aquilo que cresce na terra, que cura ou envenena, e que se torna agente ativo na criação das obras, carrega dentro de si a mesma lógica de transformação e expansão que rege o universo. A Guiné, aqui, torna-se a agente de algo muito maior: a conexão do humano com aquilo que o transcende.