Textos
O Milagre do Artista-Sacerdote
Luiz Antonio Simas - junho de 2025
Com ossos, músculos, veias, artérias, cartilagens, diversos órgãos, o corpo frequentemente foi compreendido como separado e inferior à mente na tradição ocidental. Para Platão, a matéria impede o acesso à perfeição e à beleza sublime; o corpo é um entrave à verdade. Com o cristianismo, especialmente nos escritos de São Paulo, essa visão ganha contornos morais: a salvação exige a renúncia ao corpo e suas tentações, através de jejuns, sacrifícios e rigidez moral. No século XVII, Descartes radicaliza essa cisão ao dividir o mundo em duas substâncias distintas — a mente (res cogitans) e a matéria (res extensa) —, relegando ao corpo a condição de mero objeto inconsciente.
Não é desses corpos em desencanto — platônicos, cristãos, cartesianos — que é feito o trabalho de Ian Cheibub. Os corpos que Ian retrata são terreirizáveis, filhos das tradições afro-indígenas que não encaram o ser humano como cindido, mas como resultado da interdependência entre todas as coisas. A corporeidade, para estes saberes, não engloba só a motricidade (entendida como corpo e movimento), mas também envolve dimensões afetivas, intelectuais, sociais e espirituais do ser humano.
Com essa perspectiva, o artista faz uma fotografia de mandinga, como se cada negativo fosse mesmo consagrado para entrar em transe. Antes de revelados, foram todos eles banhados no abô feito com folhas devidamente despertadas pela sacralidade, consagrando uma espécie de tecnologia encantada de subversão, invenção e resistência, nas margens encruzilhadas do assombro do mundo. É como se cada foto ganhasse uma corporeidade em si mesma, alumbrada.
Para diversas religiões baseadas em ritos iniciáticos e culturas encantadas, é através de procedimentos místicos de sacralização dos corpos para o transe que a experiência mais radical de contato com divindades e entidades pode ocorrer: a experiência integrada do ser. São eles, os corpos de encante, flagrados por Ian, os primeiros terreiros do mundo. Cada uma das fotos, eis o milagre do artista-sacerdote, é um corpo-terreiro em estado de transe também.